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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

05
Mai17

Meia-noite todo o dia

 

Só eu o sei, e porque mo disseste?

A minha responsabilidade agora é horrível.

Recebi o teu aviso, tínhamos o céu já preparado

com a noite que lhe competia e o seu absoluto de limpidez,

com o absoluto de um destino.

E havia estrelas novas, fabricadas de propósito,

como a alegria de uma criança a quem vestiram de preto.

Há Inverno à nossa volta com o frio da nossa humildade

e acendemos o lume para estarmos mais perto de nós.

E encomendou-se um pouco de neve para a celebração do início.

E bebeu-se um vinho intenso até à ternura por nós mesmos,

para a vida caber toda dentro da nossa comoção.

Tudo isto tinha que ver com o tencionado encantamento

e o que se combinou ser a esperança, a propósito de tu vires

e confirmares a esperança de que a trouxesses contigo.

No fundo da noite, há o silêncio dos homens,

que é de quem já disse tudo e é altura de tu dizeres.

Tudo isto é muito triste, não sei se fazes ideia.

Como é que eu vou poder agora explicar-lhes?

Vê-los erguer para mim os olhos necessitados,

todos junto da porta à espera que batas à porta?

Tudo fora já experimentado nas combinações possíveis,

não talvez de se ser feliz, mas de ser plausível pensá-lo.

Não, não vou agora dizer-lhes que nunca mais irás voltar,

que a fábula se esgotou e é altura de serem homens,

na desgraça miserável de serem maiores do que eles,

na pequena glória portátil de não serem menores do que eles.

Mas não, não vou dizer-lhes, estava eu bem arranjado.

Corriam-me à pedrada ou pregavam-me no madeiro,

que é o que te estão já preparando,

com pregos e martelo nos bolsos,

quando for a altura de esgotares, como os políticos, a esperança

que tinhas prometido,

e aguardarem até ao ano que a trouxesses outra vez.

Porque, enfim, sem esperança,

como diabo se há-de viver?

Estou só e muito enrascado

com o segredo horrível que me anunciaste.

Não o digo a ninguém. Perder a esperança, sim, mas devagar.

Aliás, mesmo a mim, que sou razoavelmente um homem forte,

é um bocado difícil de engolir

essa coisa trágica, nefanda e absolutamente despropositada

de nunca mais voltares, definitivamente,

nunca mais

nunca mais…

Vergílio Ferreira

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