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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

31
Jan18

Contradições

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente; 
Nem posso tolerar os livros mais bizarros. 
Incrível! Já fumei três maços de cigarros 
Consecutivamente. 

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos: 
Tanta depravação nos usos, nos costumes! 
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes 
E os ângulos agudos. 

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora 
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes; 
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes 
E engoma para fora. 

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas! 
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica. 
Lidando sempre! E deve a conta na botica! 
Mal ganha para sopas... 

O obstáculo estimula, torna-nos perversos; 
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias, 
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias, 
Um folhetim de versos. 

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta 
No fundo da gaveta. O que produz o estudo? 
Mais duma redação, das que elogiam tudo, 
Me tem fechado a porta. 

A crítica segundo o método de Taine 
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa 
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa 
Vale um desdém solene. 

Com raras exceções merece-me o epigrama. 
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo, 
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho 
Diverte-se na lama. 

Eu nunca dediquei poemas às fortunas, 
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas. 
Independente! Só por isso os jornalistas 
Me negam as colunas. 

Receiam que o assinante ingênuo os abandone, 
Se forem publicar tais coisas, tais autores. 
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores 
Deliram por Zaccone. 

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa, 
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie; 
E a mim, não há questão que mais me contrarie 
Do que escrever em prosa. 

A adulação repugna aos sentimentos finos; 
Eu raramente falo aos nossos literatos, 
E apuro-me em lançar originais e exatos, 
Os meus alexandrinos... 

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso! 
Ignora que a asfixia a combustão das brasas, 
Não foge do estendal que lhe umedece as casas, 
E fina-se ao desprezo! 

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova. 
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente, 
Oiço-a cantarolar uma canção plangente 
Duma opereta nova! 

Perfeitamente. Vou findar sem azedume. 
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas, 
Conseguirei reler essas antigas rimas, 
Impressas em volume? 

Nas letras eu conheço um campo de manobras; 
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague, 
E esta poesia pede um editor que pague 
Todas as minhas obras 

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha? 
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia? 
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia... 
Que mundo! Coitadinha! 

 

Cesário Verde

29
Jan18

Mãe

 

Mãe! a oleografia está a entornar o amarelo do Deserto por cima da
minha vida. O amarelo do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
Mãe! eu queria ser o árabe! Eu queria raptar a menina loira!
Eu queria saber raptar.
Dá-me um cavalo, mãe! Até a palmeira verde está esmeralda! E o anel?!

 

A minha cabeça amolece ao sol sobre a areia movediça do Deserto!
A minha cabeça está mole como a minha almofada!

 

Há uns sinais dentro da minha cabeça, como os sinais do Egípcio,
como os sinais do Fenício. Os sinais destes já têm antecedentes e eu
ainda vou para a vida.

 

Não há muros para que haja estrada! Não há muros para pôr cartazes!
Não está a mão de tinta preta a apontar — por aqui!
Só há sombras do sol nas laranjeiras da outra margem, e todas as noites
o sono chega roubado!

 

Mãe! As estrelas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem
quando luzem. Estão a luzir, ou mentem?
Já ia a cuspir para o céu!

 

Mãe! a minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida!

 

Mãe! dá-me um cavalo! Eu já sou o galope! Há uma palmeira, Mãe!
O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.

 

Mãe! eu quero ser as três oleografias!

 

José de Almada Negreiros

27
Jan18

Canto Firme

Desatar o silêncio, 

ficar a vê-lo 
escorrer na vidraça, 

entrar na noite, 

labirinto 
onde perco a mão, 

deixar o sangue 
iluminar meu pulso 
de terra ardente, 

ser música ainda, 

penetrar na 
água da palha, 

seca, dura, 

no fogo raso 
à beira do inverno, 

procurar a pedra 
onde dormir, 

o estábulo morno 
da confidência, 

os olhos 
onde o azul persiste, 

única fonte, 

espelho 
por onde a sombra 
entra devagar, 

sentir o sangue, 
o silêncio 

arder… 

 

Eugénio de Andrade

25
Jan18

Fico Sozinho com Universo Inteiro

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego, 
Por toda a parte das coisas sobrepostas, 
Os andares vários da acumulação da vida... 
Calaram o piano no terceiro andar... 
Não oiço já passos no segundo andar... 
No rés-do-chão o rádio está em silêncio... 

Vai tudo dormir... 

Fico sozinho com o universo inteiro. 
Não quero ir à janela: 
Se eu olhar, que de estrelas! 
Que grandes silêncios maiores há no alto! 
Que céu anticitadino! — 
Antes, recluso, 
Num desejo de não ser recluso, 
Escuto ansiosamente os ruídos da rua... 
Um automóvel — demasiado rápido! — 
Os duplos passos em conversa falam-me... 
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me... 

Vai tudo dormir... 

Só eu velo, sonolentamente escutando, 
Esperando 
Qualquer coisa antes que durma... 
Qualquer coisa. 

 

Álvaro de Campos

24
Jan18

Num Bairro Moderno

Dez horas da manhã; os transparentes 
Matizam uma casa apalaçada; 
Pelos jardins estancam-se as nascentes, 
E fere a vista, com brancuras quentes, 
A larga rua macadamizada. 

Rez-de-chaussée repousam sossegados, 
Abriram-se, nalguns, as persianas, 
E dum ou doutro, em quartos estucados, 
Ou entre a rama do papéis pintados, 
Reluzem, num almoço, as porcelanas. 

Como é saudável ter o seu conchego, 
E a sua vida fácil! Eu descia, 
Sem muita pressa, para o meu emprego, 
Aonde agora quase sempre chego 
Com as tonturas duma apoplexia. 

E rota, pequenina, azafamada, 
Notei de costas uma rapariga, 
Que no xadrez marmóreo duma escada, 
Como um retalho da horta aglomerada 
Pousara, ajoelhando, a sua giga. 

E eu, apesar do sol, examinei-a. 
Pôs-se de pé, ressoam-lhe os tamancos; 
E abre-se-lhe o algodão azul da meia, 
Se ela se curva, esguelhada, feia, 
E pendurando os seus bracinhos brancos. 

Do patamar responde-lhe um criado: 
"Se te convém, despacha; não converses. 
Eu não dou mais." È muito descansado, 
Atira um cobre lívido, oxidado, 
Que vem bater nas faces duns alperces. 

Subitamente - que visão de artista! - 
Se eu transformasse os simples vegetais, 
À luz do Sol, o intenso colorista, 
Num ser humano que se mova e exista 
Cheio de belas proporções carnais?! 

Bóiam aromas, fumos de cozinha; 
Com o cabaz às costas, e vergando, 
Sobem padeiros, claros de farinha; 
E às portas, uma ou outra campainha 
Toca, frenética, de vez em quando. 

E eu recompunha, por anatomia, 
Um novo corpo orgânico, ao bocados. 
Achava os tons e as formas. Descobria 
Uma cabeça numa melancia, 
E nuns repolhos seios injetados. 

As azeitonas, que nos dão o azeite, 
Negras e unidas, entre verdes folhos, 
São tranças dum cabelo que se ajeite; 
E os nabos - ossos nus, da cor do leite, 
E os cachos de uvas - os rosários de olhos. 

Há colos, ombros, bocas, um semblante 
Nas posições de certos frutos. E entre 
As hortaliças, túmido, fragrante, 
Como alguém que tudo aquilo jante, 
Surge um melão, que lembrou um ventre. 

E, como um feto, enfim, que se dilate, 
Vi nos legumes carnes tentadoras, 
Sangue na ginja vívida, escarlate, 
Bons corações pulsando no tomate 
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras. 

O Sol dourava o céu. E a regateira, 
Como vendera a sua fresca alface 
E dera o ramo de hortelã que cheira, 
Voltando-se, gritou-me, prazenteira: 
"Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!..." 

Eu acerquei-me dela, sem desprezo; 
E, pelas duas asas a quebrar, 
Nós levantamos todo aquele peso 
Que ao chão de pedra resistia preso, 
Com um enorme esforço muscular. 

"Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!" 
E recebi, naquela despedida, 
As forças, a alegria, a plenitude, 
Que brotam dum excesso de virtude 
Ou duma digestão desconhecida. 

E enquanto sigo para o lado oposto, 
E ao longe rodam umas carruagens, 
A pobre, afasta-se, ao calor de agosto, 
Descolorida nas maçãs do rosto, 
E sem quadris na saia de ramagens. 

Um pequerrucho rega a trepadeira 
Duma janela azul; e, com o ralo 
Do regador, parece que joeira 
Ou que borrifa estrelas; e a poeira 
Que eleva nuvens alvas a incensá-lo. 

Chegam do gigo emanações sadias, 
Ouço um canário - que infantil chilrada! 
Lidam ménages entre as gelosias, 
E o sol estende, pelas frontarias, 
Seus raios de laranja destilada. 

E pitoresca e audaz, na sua chita, 
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, 
Duma desgraça alegre que me incita, 
Ela apregoa, magra, enfezadita, 
As suas couves repolhudas, largas. 

E, como as grossas pernas dum gigante, 
Sem tronco, mas atléticas, inteiras, 
Carregam sobre a pobre caminhante, 
Sobre a verdura rústica, abundante, 
Duas frugais abóboras carneiras. 

Cesário Verde

23
Jan18

Elogio da Dialética

A injustiça vai por aí com passe firme.
Os tiranos se organizam para dez mil anos.
O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.
Nenhuma voz senão a voz dos dominantes.
E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.
Já entre os súditos muitos dizem:
O que queremos, nunca alcançaremos,

 

Quem ainda está vivo, nunca diga: nunca!
O mais firme não é firme.
Assim como é não ficará.
Depois que os dominantes tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem ousa dizer: nunca?
A quem se deve a duração da tirania? A nós.
A quem sua derrubada? Também a nós.
Quem será esmagado, que se levante!
Quem está perdido, que lute!
Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?
Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.
De nunca sairá: ainda hoje.

 

BERTOLT BRECHT

18
Jan18

Vazio

A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
Sinto-me só.
Em todas as coisas que me rodeiam
Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
A noite alta me espia pela janela
E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
Olho as coisas em torno
Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.

Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
Tudo é deserto, minha alma é vazia
E tem o silêncio grave dos templos abandonados.
Eu espio a noite pela janela
Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase.
Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias
E eu penso que amanhã...
Mas a gata vê na rua um gato preto e grande
E foge do gato cinzento.

Eu espio a noite maravilhosa
Estranha como um olhar de carne.
Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto
Perco-me por momentos em antigas aventuras
E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais
Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher
Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua.

Vinicius de Moraes

16
Jan18

A um Poeta

Posto à sombra dos cedros seculares, 
Como um levita à sombra dos altares, 
Longe da luta e do fragor terreno. 

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno 
Afugentou as larvas tumulares... 
Para surgir do seio desses mares 
Um mundo novo espera só um aceno... 

Escuta! É a grande voz das multidões! 
São teus irmãos, que se erguem! São canções... 
Mas de guerra... e são vozes de rebate! 

Ergue-te, pois, soldado do Futuro, 
E dos raios de luz do sonho puro, 
Sonhador, faze espada de combate! 


Antero de Quental
15
Jan18

Não Quero Nada

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

 

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

 

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

 

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 

Que mal fiz eu aos deuses todos?

 

Se têm a verdade, guardem-na!

 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

 

Não me macem, por amor de Deus!

 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

 

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

 

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

 

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

 

Álvaro de Campos

12
Jan18

Ignotus

Onde te escondes? Eis que em vão clamamos, 
Suspirando e erguendo as mãos em vão! 
Já a voz enrouquece e o coração 
Está cansado — e já desesperamos... 



Por céu, por mar e terras procuramos 
O Espírito que enche a solidão, 
E só a própria voz na imensidão 
Fatigada nos volve... e não te achamos!



Céus e terra, clamai, aonde? aonde? — 
Mas o Espírito antigo só responde, 
Em tom de grande tédio e de pesar: 



— Não vos queixeis, ó filhos da ansiedade, 
Que eu mesmo, desde toda a eternidade, 
Também me busco a mim... sem me encontrar! 



Antero de Quental

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