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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

29
Jun18

Sozinho com Todo o Mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

 

C. Bukowski

25
Jun18

Dois Horizontes

Dois horizontes fecham nossa vida:

 

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

 

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

 

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

 

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

 

Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

 

Dois horizontes fecham nossa vida.

 

MACHADO DE ASSIS

21
Jun18

O Dia é Feito

O dia está feito e a escuridão
Cai das asas da noite,
Como uma pena é levada para baixo
De uma águia em seu vôo.
                                                                                
Eu vejo as luzes da aldeia
Brilha através da chuva e da névoa,
E um sentimento de tristeza vem a mim
Que minha alma não pode resistir:
                                                                                
Um sentimento de tristeza e saudade,
Isso não é parecido com a dor,
E se assemelha apenas a tristeza
Como a névoa se assemelha à chuva.
                                                                                
Venha, leia para mim algum poema,
Alguns leigos simples e sinceros
Isso deve acalmar esse sentimento inquieto,
E banir os pensamentos do dia.
                                                                                
Não dos grandes mestres antigos
Não dos bardos sublimes,
Cujos passos distantes ecoam
Através dos corredores do tempo.

Pois, como cepas de música marcial,
Seus poderosos pensamentos sugerem
A vida é uma labuta e esforço sem fim;
E a noite eu anseio por descanso.
                                                                                
Leia de algum poeta mais humilde
Cujas canções jorraram de seu coração,
Como chuveiros das nuvens do verão,
Ou lágrimas das pálpebras começam;
Quem, através de longos dias de trabalho, E noites desprovidas de facilidade Ainda ouviu em sua alma a música De melodias maravilhosas.
Essas músicas têm poder para aquietar O pulso inquieto do cuidado, E vem como a bênção Isso segue depois da oração.
Então leia o volume estimado O poema da tua escolha E emprestar para a rima do poeta A beleza da tua voz.
E a noite será preenchida com música E os cuidados, que infestam o dia, Devem dobrar suas tendas, como os árabes, E como silenciosamente roubar.
Henry Wadsworth Longfellow
19
Jun18

Encantamento

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar…
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

 

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

Teixeira de Pascoaes

13
Jun18

Intimidade

Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao
[mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não o afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

 

Fernando Namora

01
Jun18

Receita para Fazer o Azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

 

Nuno Júdice

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