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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

31
Jul18

Identidade

Matei a lua e o luar difuso. 
Quero os versos de ferro e de cimento. 
E em vez de rimas, uso 
As consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode 
A todo o coração que se debate aflito. 
E luta como sabe e como pode: 
Dá beleza e sentido a cada grito. 

Mas como as inscrições nas penedias 
Têm maior duração, 
Gasto as horas e os dias 
A endurecer a forma da emoção.

 

Miguel Torga

30
Jul18

Poema da Eterna Presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, 
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, 
que as dimensões do infinito não me perturbam. 
(O infinito! 
Essa incomensurável distância de meio metro 
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) 

O que me perturba é que o todo possa caber na parte, 
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. 

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, 
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. 
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas 
porque eu não sou braço nem sou perna. 

Se eu tivesse a memória das pedras 
que logo entram em queda assim que se largam no espaço 
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair; 
se eu tivesse a memória da luz 
que mal começa, na sua origem, logo se propaga, 
sem que nenhuma se esquecesse de propagar; 
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra, 
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram 
continentes, 
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a 
Terra. 

Mas não esqueci tudo. 
Guardei a memória da treva, do medo espavorido 
do homem da caverna 
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; 
guardei a memória da fome; 
da fome de todos os bichos de todas as eras, 
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; 
guardei a memória do amor, 
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, 
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; 
guardei a memória do infinito, 
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos, 
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, 
à formação do Universo. 

Tudo se passou defronte de partes de mim. 
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, 
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim. 
Já cá estavam. 
Estão. 
E estarão. 

 

António Gedeão

28
Jul18

O Mundo Inteiro

O mundo inteiro. Todo! É meu. Mesmo sem ser meu.
Vive dentro deste corpo escanzelado o mundo inteiro,
O nosso mundo invicto: O único. O real. O verdadeiro.
Aquele que nunca ninguém viu, e nunca ninguém leu.

Nos mares do meu sangue nadam peixes prateados,
Navegam barcas com velas branco-sujo triangulares,
No céu do meu peito envolto em cores crepusculares,
Voam pássaros exóticos em voos livres e inesperados.

Na estrada árida das minhas mãos, uma rapariga ruiva,
Vestida com solidão, sorri aos fantasmas e aos medos,
Trago a lua ofuscante - hoje cheia - na ponta dos dedos,
E a alcateia, do bosque inóspito da alma, dança e uiva.

Vivem nas árvores dos meus braços os filhos rejeitados,
Dragões de garganta afogueada, e corajosos cavaleiros,
Os bandidos cobardes, e os mais bravos dos guerreiros,
Descansam na sombra amarga os amantes mal amados.

Na terra dos olhos dorme a mendiga do metro de Picoas,
Esvoaçam sobre o lago das lágrimas borboletas coloridas,
Mergulham os perigosos assassinos, e os tristes suicidas,
Mergulho eu, mergulhas tu, mergulham todas as pessoas.

Atravessa o rio salgado da minha boca um barco a remos,
As ruínas de Palatino estão nas curvas dos meus ombros,
Tudo o que resiste e existe em mim são só os escombros,
Só as saudades da saudade dos beijos que já não demos.

 

GNM

27
Jul18

Só Eu Sinto Bater-lhe o Coração

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo. 
(Alguém há-de guardar este tesoiro!) 
E, como dorme, afago-lhe o cabelo, 
Que mesmo adormecido é fino e loiro. 

Só eu sinto bater-lhe o coração, 
Vejo que sonha, que sorri, que vive; 
Só eu tenho por ela esta paixão 
Como nunca hei-de ter e nunca tive. 

E logo talvez já nem reconheça 
Quem zelou esta flor do seu cansaço... 
Mas que o dia amanheça 
E cubra de poesia o seu regaço! 
 
 
Miguel Torga
26
Jul18

Os Imortais

Dos vales terrenos chega até nós o anseio da vida:
impulso desordenado, ébria exuberância, sangrento aroma de
repastos fúnebres.
São espasmos de gozo, ambições sem termo,
mãos de assassinos, de usurários, de santos,
o enxame humano fustigado pela angústia e o prazer.
Lança vapores asfixiantes e pútridos, crus e cálidos,
respira beatitude e ânsia insopitada,
devora-se a si mesmo para depois se vomitar.
Manobra a guerra e faz surgir as artes puras,
adorna de ilusões a casa do pecado,
arrasta-se, consome-se, prostitui-se todo
nas alegrias de seu mundo infantil;
ergue-se em ondas ao encalço de qualquer novidade
para de novo retombar na lama.
Já nós vivemos
no gelo etéreo transluminado de estrelas;
não conhecemos os dias nem as horas,
não temos sexos nem idades.
Vossos pecados e angústias,
vossos crimes e lascivos gozos,
são para nós um espetáculo como o girar dos sóis.
Cada dia é para nós o mais longo.
Debruçados tranquilos sobre vossas vidas,
contemplamos serenos as estrelas que giram,
respiramos o inverno do mundo sideral;
somos amigos do dragão celeste:
fria e imutável é nossa eterna essência,
frígido e astral o nosso eterno riso.

 

Herman Hess

24
Jul18

Os Amantes sem Dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

 

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

 

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

 

Eugénio de Andrade

 

23
Jul18

Se Tu Me Amas

Se tu me amas, ama-me baixinho 
Não o grites de cima dos telhados 
Deixa em paz os passarinhos 
Deixa em paz a mim! 
Se me queres, 
enfim, 
tem de ser bem devagarinho, Amada, 
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda... 

 

Mario de Quintana

20
Jul18

Poema do Homem Só

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nehum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

 

Dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

 

Dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

 

Este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguém.

 

António Gedeão

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