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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

13
Ago18

Amavisse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
(II)

* * *
Descansa.
O Homem já se fez
O escuro cego raivoso animal
Que pretendias.

 

Hilda Hilst

12
Ago18

Príncipio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava 
nos arabescos pretos do basalto 
e gente, muita gente que passava 
e se detinha a olhá-la em sobressalto 

no seu olhar havia uma promessa 
nos seus quadris dançava um desafio 
num relance de barco mas sem pressa 
que fosse ao sol-poente pelo rio 

trazia nos cabelos um perfume 
a derramar-se em praias de alabastro 
e um brilho mais sombrio quase lume 
de fogo-fátuo a coroar um mastro 

seu porte altivo punha à vista o puro 
princípio do prazer que caminhava 
carnal e nobre e lúcido e seguro 
com qualquer coisa de uma orquídea brava 

e nas ruas da baixa pombalina 
sua blusa encarnada era a bandeira 
e o grito da revolta na retina 
de quem fosse atrás dela a vida inteira. 

 

Vasco Graça Moura

09
Ago18

Devia Morrer-se de Outra Maneira


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

 

José Gomes Ferreira

08
Ago18

Presságio XVII

Todos irão sempre contra ti

porque tens pureza.

 

Porque o agitado de tuas mãos

é quase nostálgico.

 

Porque teus olhos

ficarão abertos

para quem os viu

uma única vez.

 

Todos irão sempre contra ti

porque hás de querer

um mundo novo e diferente.

porque és estranho

e diferente para o nosso mundo.

 

És quase um louco

porque  não dás atenção

a toda gente.

 

Dirão que és poeta.

Porque a poesia aparece nos teus gestos

como aparece fé na oração de um crente.

Amastes quase todas as mulheres.

Mas o amor agora é tão difícil.

Não existe para mim.

Mas agitado, febril,

quase doente, é vivo...

 

Vivo demais para viver conosco.

 

Hilda Hist

06
Ago18

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado 
na sua teia de datas e lugares. 
É uma matéria vibrátil e nostálgica 
que não consigo tocar sem receio, 
porque queima os dedos, 
porque fere os lábios, 
porque dilacera os olhos. 
E não me venham dizer que é inocente, 
passiva e benigna porque não posso acreditar. 
A minha saudade tem mulheres 
agarradas ao pescoço dos que partem, 
crianças a brincarem nos passeios, 
amantes ocultando-se nas sebes, 
soldados execrando guerras. 
Pode ser uma casa ou uma rede 
das que não prendem pássaros nem peixes, 
das que têm malhas largas 
para deixar passar o vento e a pressa 
das ondas no corpo da areia. 
Seria hipócrita se dissesse 
que esta saudade não me vem à boca 
com o sabor a fogo das coisas incumpridas. 
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão. 
 
Jose Jorge Letria
04
Ago18

Viver Sempre Também Cansa

Viver sempre também cansa. 

O sol é sempre o mesmo e o céu azul 
ora é azul, nitidamente azul, 
ora é cinzento, negro, quase-verde... 
Mas nunca tem a cor inesperada. 

O mundo não se modifica. 
As árvores dão flores, 
folhas, frutos e pássaros 
como máquinas verdes. 

As paisagens também não se transformam. 
Não cai neve vermelha, 
não há flores que voem, 
a lua não tem olhos 
e ninguém vai pintar olhos à lua. 

Tudo é igual, mecânico e exacto. 

Ainda por cima os homens são os homens. 
Soluçam, bebem, riem e digerem 
sem imaginação. 

 

Jose Gomes Ferreira

02
Ago18

Um pouco mais de nós

Podes dar uma centelha de lua, 
um colar de pétalas breves 
ou um farrapo de nuvem; 
podes dar mais uma asa 
a quem tem sede de voar 
ou apenas o tesouro sem preço 
do teu tempo em qualquer lugar; 
podes dar o que és e o que sentes 
sem que te perguntem 
nome, sexo ou endereço; 
podes dar em suma, com emoção, 
tudo aquilo que, em silêncio, 
te segreda o coração; 
podes dar a rima sem rima 
de uma música só tua 
a quem sofre a miséria dos dias 
na noite sem tecto de uma rua; 
podes juntar o diamante da dádiva 
ao húmus de uma crença forte e antiga, 
sob a forma de poema ou de cantiga; 
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro 
do relógio da vida sem atraso, 
e sendo tudo isso serás ainda mais, 
anónimo, pleno e livre, 
nau sempre aparelhada para deixar o cais, 
porque o que conta, vendo bem, 
é dar sempre um pouco mais, 
sem factura, sem fama, sem horário, 
que a máxima recompensa de quem dá 
é o júbilo de um gesto voluntário. 

E, afinal, tudo isso quanto vale ? 
Vale o nada que é tudo 
sempre que damos de nós 
o que, sendo acto amor, ganha voz 
e se torna eterno por ser único e total.

 

Jose Jorge Letria

01
Ago18

Aqui não precisas de me procurar

Aqui não precisas de me procurar 
para me encontrares, que eu estou, 
omnipresente, em todo o chão que pisas, 
duplicando a tua sombra, 
deixando um rasto de brisa, 
um aroma de urze na marca dos teus passos. 
Com esta roupa visitaremos os pátios, 
os átrios de dança e do encantamento. 
As nuvens aninhadas atrás da lua, 
na olorosa paz da madrugada, 
são o mapa das errâncias da fala 
enquanto o coração, indefeso, capitula.
 
 
José Jorge Letria

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