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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

19
Set18

A Mentira está em ti

"Olá, guardador de rebanhos, 
Aí à beira da estrada, 
Que te diz o vento que passa?" 

"Que é vento, e que passa, 
E que já passou antes, 
E que passará depois. 
E a ti o que te diz?" 

"Muita cousa mais do que isso. 
Fala-me de muitas outras cousas. 
De memórias e de saudades 
E de cousas que nunca foram." 

"Nunca ouviste passar o vento. 
O vento só fala do vento. 
O que lhe ouviste foi mentira, 
E a mentira está em ti."

 

Alberto Caeiro

15
Set18

EU

Eu, eu mesmo... 
Eu, cheio de todos os cansaços 
Quantos o mundo pode dar. — 
Eu... 
Afinal tudo, porque tudo é eu, 
E até as estrelas, ao que parece, 
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... 
Que crianças não sei... 
Eu... 
Imperfeito? Incógnito? Divino? 
Não sei... 
Eu... 
Tive um passado? Sem dúvida... 
Tenho um presente? Sem dúvida... 
Terei um futuro? Sem dúvida... 
A vida que pare de aqui a pouco... 
Mas eu, eu... 
Eu sou eu, 
Eu fico eu, 
Eu...

Alberto Caeiro

12
Set18

O amor é uma companhia

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

 
Alberto Caeiro
10
Set18

Deste ou daquele modo

Conforme calha ou não calha. 
Podendo às vezes dizer o que penso, 
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas, 
Vou escrevendo os meus versos sem querer, 
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos, 
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse 
Como dar-me o sol de fora. 

Procuro dizer o que sinto 
Sem pensar em que o sinto. 
Procuro encostar as palavras à idéia 
E não precisar dum corredor 
Do pensamento para as palavras 
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir. 
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a 
nado 
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. 

Procuro despir-me do que aprendi, 
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me 
ensinaram, 
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, 
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, 
Mas um animal humano que a Natureza produziu. 

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer 
como um homem, 
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. 
E assim escrevo, ora bem ora mal, 
Ora acertando com o que quero dizer ora errando, 
Caindo aqui, levantando-me acolá, 
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso. 

Ainda assim, sou alguém. 
Sou o Descobridor da Natureza. 
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. 
Trago ao Universo um novo Universo 
Porque trago ao Universo ele-próprio. 

Isto sinto e isto escrevo 
Perfeitamente sabedor e sem que não veja 
Que são cinco horas do amanhecer 
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça 
Por cima do muro do horizonte, 
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos 
Agarrando o cimo do muro 
Do horizonte cheio de montes baixos.
 
Alberto Caeiro
09
Set18

Passa uma borboleta

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

 

Alberto Caeiro

08
Set18

Quem me dera

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.


Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

22
Ago18

Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda

Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento ... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural... 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva ... 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja ... 

 

Alberto Caeiro

17
Jul18

Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada

Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

 

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas cousas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

 

"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados
das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das cousas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

 

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema V"

24
Mai17

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

 

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

 

Alberto Caeiro

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