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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

01
Out18

Poema das árvores

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
edeles nascem folhas, e as folhas multiplicam deles nascem folhas, e as folhas multiplicam deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão- Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores, se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas. E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam- Contactam-se, penetram se, penetram se, penetram-se, trespassam se, trespassam se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores, Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas, Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.

 

Antonio Gedeão

30
Jul18

Poema da Eterna Presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva, 
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria, 
que as dimensões do infinito não me perturbam. 
(O infinito! 
Essa incomensurável distância de meio metro 
que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!) 

O que me perturba é que o todo possa caber na parte, 
que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote. 

O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim, 
de mim, pobre de mim, que sou parte do todo. 
E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas 
porque eu não sou braço nem sou perna. 

Se eu tivesse a memória das pedras 
que logo entram em queda assim que se largam no espaço 
sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair; 
se eu tivesse a memória da luz 
que mal começa, na sua origem, logo se propaga, 
sem que nenhuma se esquecesse de propagar; 
os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra, 
os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram 
continentes, 
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a 
Terra. 

Mas não esqueci tudo. 
Guardei a memória da treva, do medo espavorido 
do homem da caverna 
que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz; 
guardei a memória da fome; 
da fome de todos os bichos de todas as eras, 
que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo; 
guardei a memória do amor, 
dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras, 
que me fez desejar a mulher do próximo e do distante; 
guardei a memória do infinito, 
daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos, 
em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado, 
à formação do Universo. 

Tudo se passou defronte de partes de mim. 
E aqui estou eu feito carne para o demonstrar, 
porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim. 
Já cá estavam. 
Estão. 
E estarão. 

 

António Gedeão

20
Jul18

Poema do Homem Só

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nehum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

 

Dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

 

Dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

 

Este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguém.

 

António Gedeão
28
Abr17

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

 

Eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

 

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é Cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

 

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida.

Que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 
António Gedeão

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