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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

05
Set18

Evolução

Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo 
tronco ou ramo na incógnita floresta... 
Onda, espumei, quebrando-me na aresta 
Do granito, antiquíssimo inimigo... 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
O, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paúl, glauco pascigo... 

Hoje sou homem, e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade... 

Interrogo o infinito e às vezes choro... 
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade. 



Antero de Quental

28
Ago18

Justitia Mater

Nas florestas solenes há o culto 
Da eterna, íntima força primitiva: 
Na serra, o grito audaz da alma cativa, 
Do coração, em seu combate inulto: 

No espaço constelado passa o vulto 
Do inominado Alguém, que os sóis aviva: 
No mar ouve-se a voz grave e aflitiva 
D'um deus que luta, poderoso e inculto. 

Mas nas negras cidades, onde solta 
Se ergue, de sangue medida, a revolta, 
Como incêndio que um vento bravo atiça, 

Há mais alta missão, mais alta glória: 
O combater, à grande luz da história, 
Os combates eternos da Justiça! 

Antero de Quental
16
Jan18

A um Poeta

Posto à sombra dos cedros seculares, 
Como um levita à sombra dos altares, 
Longe da luta e do fragor terreno. 

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno 
Afugentou as larvas tumulares... 
Para surgir do seio desses mares 
Um mundo novo espera só um aceno... 

Escuta! É a grande voz das multidões! 
São teus irmãos, que se erguem! São canções... 
Mas de guerra... e são vozes de rebate! 

Ergue-te, pois, soldado do Futuro, 
E dos raios de luz do sonho puro, 
Sonhador, faze espada de combate! 


Antero de Quental
12
Jan18

Ignotus

Onde te escondes? Eis que em vão clamamos, 
Suspirando e erguendo as mãos em vão! 
Já a voz enrouquece e o coração 
Está cansado — e já desesperamos... 



Por céu, por mar e terras procuramos 
O Espírito que enche a solidão, 
E só a própria voz na imensidão 
Fatigada nos volve... e não te achamos!



Céus e terra, clamai, aonde? aonde? — 
Mas o Espírito antigo só responde, 
Em tom de grande tédio e de pesar: 



— Não vos queixeis, ó filhos da ansiedade, 
Que eu mesmo, desde toda a eternidade, 
Também me busco a mim... sem me encontrar! 



Antero de Quental

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