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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

10
Jul18

Elegia do Ciúme

A tua morte, que me importa, 
se o meu desejo não morreu? 
Sonho contigo, virgem morta, 
e assim consigo (mas que importa?) 
possuir em sonho quem morreu. 

Sonho contigo em sobressalto, 
não vás fugir-me, como outrora. 
E em cada encontro a que não falto 
inda me turbo e sobressalto 
à tua mínima demora. 

Onde estiveste? Onde? Com quem? 
— Acordo, lívido, em furor. 
Súbito, sei: com mais ninguém, 
ó meu amor!, com mais ninguém 
repartirás o teu amor. 

E se adormeço novamente 
vou, tão feliz!, sem azedume 
— agradecer-te, suavemente, 
a tua morte que consente 
tranquilidade ao meu ciúme. 
 
 
David Mourão Ferreira 
09
Fev18

A Secreta Viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio, 
ficámos nós os dois, parados, de mão dada... 
Como podem só dois governar um navio? 
Melhor é desistir e não fazermos nada! 

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos, 
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa... 
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos... 
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa... 

Aparentes senhores de um barco abandonado, 
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem... 
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado, 
se justifica, enflora, a secreta viagem! 

Agora sei que és tu quem me fora indicada. 
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos. 
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada, 
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos! 

David Mourão Ferreira

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