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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

16
Out18

Quero Ser

Quero ser o teu amor amigo .
Nem demais ... e nem de menos .
Nem tão longe ... e nem tão perto .
Na medida mais precisa que eu puder .
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber .

Sem tirar-te a liberdade ... sem jamais te sufocar .
Sem forçar tua vontade .
Sem falar ... quando for hora de calar .
E sem calar ... quando for hora de falar .
Nem ausente ... nem presente por demais .
Simplesmente ... calmamente ... ser-te paz .

É bonito ser amor amigo ... Mas confesso é tão difícil aprender !
E por isso eu te suplico paciência .
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo ... de acertar nossas distâncias ...



Fernando Pessoa

19
Jul18

Vaga, no Azul Amplo Solta

Vaga, no azul amplo solta,
Vai uma nuvem errando.
O meu passado não volta.
Não é o que estou chorando.

 

O que choro é diferente.
Entra mais na alma da alma.
Mas como, no céu sem gente,
A nuvem flutua calma.

 

E isto lembra uma tristeza
E a lembrança é que entristece,
Dou à saudade a riqueza
De emoção que a hora tece.

 

Mas, em verdade, o que chora
Na minha amarga ansiedade
Mais alto que a nuvem mora,
Está para além da saudade.

 

Não sei o que é nem consinto
À alma que o saiba bem.
Visto da dor com que minto
Dor que a minha alma tem.

 

Fernando Pessoa

05
Jul18

Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 
"Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada 
A forma para a casar com o que eu sou: Viver não 
É necessário; o que é necessário é criar. 

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. 
Só quero torná-la grande, ainda que para isso 
Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. 

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso 
Tenha de a perder como minha. 

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho 
Na essência anímica do meu sangue o propósito 
Impessoal de engrandecer a pátria e contribuir 
Para a evolução da humanidade. 

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

 

Fernando Pessoa

28
Mai18

Sossega Coração

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

 

Fernando Pessoa

16
Out17

Chove. Há Silêncio

 

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

 

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

 

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

10
Jul17

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas. 
Depois, onde é visível o jardim 
Através do portão de grade dada, 
Põe quantas flores são as mais risonhas, 
Para que te conheçam só assim. 
Onde ninguém o vir não ponhas nada. 

Faze canteiros como os que outros têm, 
Onde os olhares possam entrever 
O teu jardim com lho vais mostrar. 
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém, 
Deixa as flores que vêm do chão crescer 
E deixa as ervas naturais medrar. 

Faze de ti um duplo ser guardado; 
E que ninguém, que veja e fite, possa 
Saber mais que um jardim de quem tu és - 
Um jardim ostensivo e reservado, 
Por trás do qual a flor nativa roça 
A erva tão pobre que nem tu a vês... 

Fernando Pessoa

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