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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

06
Ago18

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A Minha Saudade Tem o Mar Aprisionado

A minha saudade tem o mar aprisionado 
na sua teia de datas e lugares. 
É uma matéria vibrátil e nostálgica 
que não consigo tocar sem receio, 
porque queima os dedos, 
porque fere os lábios, 
porque dilacera os olhos. 
E não me venham dizer que é inocente, 
passiva e benigna porque não posso acreditar. 
A minha saudade tem mulheres 
agarradas ao pescoço dos que partem, 
crianças a brincarem nos passeios, 
amantes ocultando-se nas sebes, 
soldados execrando guerras. 
Pode ser uma casa ou uma rede 
das que não prendem pássaros nem peixes, 
das que têm malhas largas 
para deixar passar o vento e a pressa 
das ondas no corpo da areia. 
Seria hipócrita se dissesse 
que esta saudade não me vem à boca 
com o sabor a fogo das coisas incumpridas. 
Imagino-a distante e extinta, e contudo
cresce em mim como um distúrbio da paixão. 
 
Jose Jorge Letria
02
Ago18

Um pouco mais de nós

Podes dar uma centelha de lua, 
um colar de pétalas breves 
ou um farrapo de nuvem; 
podes dar mais uma asa 
a quem tem sede de voar 
ou apenas o tesouro sem preço 
do teu tempo em qualquer lugar; 
podes dar o que és e o que sentes 
sem que te perguntem 
nome, sexo ou endereço; 
podes dar em suma, com emoção, 
tudo aquilo que, em silêncio, 
te segreda o coração; 
podes dar a rima sem rima 
de uma música só tua 
a quem sofre a miséria dos dias 
na noite sem tecto de uma rua; 
podes juntar o diamante da dádiva 
ao húmus de uma crença forte e antiga, 
sob a forma de poema ou de cantiga; 
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro 
do relógio da vida sem atraso, 
e sendo tudo isso serás ainda mais, 
anónimo, pleno e livre, 
nau sempre aparelhada para deixar o cais, 
porque o que conta, vendo bem, 
é dar sempre um pouco mais, 
sem factura, sem fama, sem horário, 
que a máxima recompensa de quem dá 
é o júbilo de um gesto voluntário. 

E, afinal, tudo isso quanto vale ? 
Vale o nada que é tudo 
sempre que damos de nós 
o que, sendo acto amor, ganha voz 
e se torna eterno por ser único e total.

 

Jose Jorge Letria

01
Ago18

Aqui não precisas de me procurar

Aqui não precisas de me procurar 
para me encontrares, que eu estou, 
omnipresente, em todo o chão que pisas, 
duplicando a tua sombra, 
deixando um rasto de brisa, 
um aroma de urze na marca dos teus passos. 
Com esta roupa visitaremos os pátios, 
os átrios de dança e do encantamento. 
As nuvens aninhadas atrás da lua, 
na olorosa paz da madrugada, 
são o mapa das errâncias da fala 
enquanto o coração, indefeso, capitula.
 
 
José Jorge Letria
25
Abr17

O Dia da Liberdade


Este dia é um canteiro

com flores todo o ano

e veleiros lá ao largo

navegando a todo o pano.

E assim se lembra outro dia febril

que em tempos mudou a história

numa madrugada de Abril,

quando os meninos de hoje

ainda não tinham nascido

e a nossa liberdade

era um fruto prometido,

tantas vezes proibido,

que tinha o sabor secreto

da esperança e do afeto

e dos amigos todos juntos

debaixo do mesmo tecto.

 

José Jorge Letria

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