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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

17
Set18

Dez réis de esperança

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.


António Gedeão

16
Set18

Credo


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.

 

Natália Correia

15
Set18

EU

Eu, eu mesmo... 
Eu, cheio de todos os cansaços 
Quantos o mundo pode dar. — 
Eu... 
Afinal tudo, porque tudo é eu, 
E até as estrelas, ao que parece, 
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças... 
Que crianças não sei... 
Eu... 
Imperfeito? Incógnito? Divino? 
Não sei... 
Eu... 
Tive um passado? Sem dúvida... 
Tenho um presente? Sem dúvida... 
Terei um futuro? Sem dúvida... 
A vida que pare de aqui a pouco... 
Mas eu, eu... 
Eu sou eu, 
Eu fico eu, 
Eu...

Alberto Caeiro

13
Set18

É Cedo

É cedo,
muito cedo para me levantar
e tarde de mais para voltar dormir.

A vida é como estas manhãs ansiosas
asfixiadas entre a brancura do tecto e dos lençóis.

Apenas isto.

E alguns de nós parecem divertir-se tanto…

Esta noite sonhei com um homem que
dizia que só os pobres e tristes
são felizes.

Sou feliz? Diz-me louco dos sonhos! Sou?

Gostava de sentir que estou a caminho de alguma coisa…
Como se estivesse a escrever um livro
em que no final tudo revela o seu sentido.
Tudo acaba bem.

Mas a rotação da Terra é demasiado exacta.
E eu não
(e isto dito desta forma é em si uma exactidão,
e é por tudo isto que não sou exacto).

À minha esquerda há uma janela.
Todos os dias, pela manhã, esta janela.
Todos os dias…

Como se nada de diferente pudesse acontecer.

(Bebo água engarrafada enquanto penso nisto,
- bebo sempre água quando acordo. Sempre.)

Apenas esta janela…
Branca, verde, envidraçada…
Por vezez com gotas de chuva ou de orvalho
Mas sempre, sempre… esta janela.

 

G. N. Martins

12
Set18

O amor é uma companhia

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.

E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

 

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

 
Alberto Caeiro
11
Set18

Eu cantei o amor tão docemente

Eu cantarei de amor tão docemente, 
por uns termos em si tão concertados, 
que dous mil acidentes namorados 
faça sentir ao peito que não sente. 

Farei que amor a todos avivente, 
pintando mil segredos delicados, 
brandas iras, suspiros magoados,
temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto 
de vossa vista branda e rigorosa, 
contentar me hei dizendo a menos parte.

Porém, para cantar de vosso gesto 
a composição alta e milagrosa, 
aqui falta saber, engenho e arte.

Luis Vaz de Camões


10
Set18

Deste ou daquele modo

Conforme calha ou não calha. 
Podendo às vezes dizer o que penso, 
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas, 
Vou escrevendo os meus versos sem querer, 
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos, 
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse 
Como dar-me o sol de fora. 

Procuro dizer o que sinto 
Sem pensar em que o sinto. 
Procuro encostar as palavras à idéia 
E não precisar dum corredor 
Do pensamento para as palavras 
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir. 
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a 
nado 
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. 

Procuro despir-me do que aprendi, 
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me 
ensinaram, 
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, 
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, 
Mas um animal humano que a Natureza produziu. 

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer 
como um homem, 
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. 
E assim escrevo, ora bem ora mal, 
Ora acertando com o que quero dizer ora errando, 
Caindo aqui, levantando-me acolá, 
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso. 

Ainda assim, sou alguém. 
Sou o Descobridor da Natureza. 
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. 
Trago ao Universo um novo Universo 
Porque trago ao Universo ele-próprio. 

Isto sinto e isto escrevo 
Perfeitamente sabedor e sem que não veja 
Que são cinco horas do amanhecer 
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça 
Por cima do muro do horizonte, 
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos 
Agarrando o cimo do muro 
Do horizonte cheio de montes baixos.
 
Alberto Caeiro
09
Set18

Passa uma borboleta

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

 

Alberto Caeiro

08
Set18

Quem me dera

Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.

 

Alberto Caeiro

Eu não tinha que ter esperanças — tinha só que ter rodas ...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.

07
Set18

Realidade

 

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.

 

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho.

 

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

 

Florbela Espanca

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