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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

21
Jun18

O Dia é Feito

O dia está feito e a escuridão
Cai das asas da noite,
Como uma pena é levada para baixo
De uma águia em seu vôo.
                                                                                
Eu vejo as luzes da aldeia
Brilha através da chuva e da névoa,
E um sentimento de tristeza vem a mim
Que minha alma não pode resistir:
                                                                                
Um sentimento de tristeza e saudade,
Isso não é parecido com a dor,
E se assemelha apenas a tristeza
Como a névoa se assemelha à chuva.
                                                                                
Venha, leia para mim algum poema,
Alguns leigos simples e sinceros
Isso deve acalmar esse sentimento inquieto,
E banir os pensamentos do dia.
                                                                                
Não dos grandes mestres antigos
Não dos bardos sublimes,
Cujos passos distantes ecoam
Através dos corredores do tempo.

Pois, como cepas de música marcial,
Seus poderosos pensamentos sugerem
A vida é uma labuta e esforço sem fim;
E a noite eu anseio por descanso.
                                                                                
Leia de algum poeta mais humilde
Cujas canções jorraram de seu coração,
Como chuveiros das nuvens do verão,
Ou lágrimas das pálpebras começam;
Quem, através de longos dias de trabalho, E noites desprovidas de facilidade Ainda ouviu em sua alma a música De melodias maravilhosas.
Essas músicas têm poder para aquietar O pulso inquieto do cuidado, E vem como a bênção Isso segue depois da oração.
Então leia o volume estimado O poema da tua escolha E emprestar para a rima do poeta A beleza da tua voz.
E a noite será preenchida com música E os cuidados, que infestam o dia, Devem dobrar suas tendas, como os árabes, E como silenciosamente roubar.
Henry Wadsworth Longfellow
19
Jun18

Encantamento

Quantas vezes, ficava a olhar, a olhar
A tua dôce e angelica Figura,
Esquecido, embebido num luar,
Num enlêvo perfeito e graça pura!

E á força de sorrir, de me encantar,
Deante de ti, mimosa Creatura,
Suavemente sentia-me apagar…
E eu era sombra apenas e ternura.

Que inocencia! que aurora! que alegria!
Tua figura de Anjo radiava!
Sob os teus pés a terra florescia,

 

E até meu proprio espirito cantava!
Nessas horas divinas, quem diria
A sorte que já Deus te destinava!

Teixeira de Pascoaes

13
Jun18

Intimidade

Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao
[mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não o afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

 

Fernando Namora

01
Jun18

Receita para Fazer o Azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

 

Nuno Júdice

30
Mai18

Pela Luz dos Olhos Teus

Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só pra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.

 

Vinícius de Moraes

28
Mai18

Sossega Coração

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

 

Fernando Pessoa

21
Mai18

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

 

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

 

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

 

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

 

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

 

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

 

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

 

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

 

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

 

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

 

Mia Couto

17
Mai18

Quem?

Não sei quem és. Já não te vejo bem...
E ouço-me dizer (ai, tanta vez!...)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

 

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?...
- Não sei se tu, amor, assim me vês!...
Nossos olhos não são nossos, talvez...
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!...

 

És tudo e não és nada... És a desgraça...
És quem nem sequer vejo; és um que passa...
És sorriso de Deus que não mereço...

 

És aquele que vive e que morreu...
És aquele que é quase um outro eu...
És aquele que nem sequer conheço...

 

Florbela Espanca

03
Mai18

Echo

Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?! 
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta. 
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras. 
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Foi-se triste para a tenda. 
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma! 
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe. 
- Outra que não Ella chamára tambem por Elle. 


Almada Negreiros

30
Abr18

Não te Fies do Tempo nem da Eternidade

Não te fies do tempo nem da eternidade 

que as nuvens me puxam pelos vestidos, 

que os ventos me arrastam contra o meu desejo.
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!

 

Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!

 

Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anémona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

 

Cecília Meireles

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