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Até que os Sentidos Transbordem

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Poesia não são palavras que rimam, são palavras que sentem.

Até que os Sentidos Transbordem

27
Abr18

Terra - 24

António, é preciso partir! 
o moleiro não fia, 
a terra é estéril, 
a arca vazia, 
o gado minga e se fina! 
António, é preciso partir! 
A enxada sem uso, 
o arado enferruja, 
o menino quere o pão; a tua casa é fria! 
É preciso emigrar! 
O vento anda como doido – levará o azeite; 
a chuva desaba noite e dia – inundará tudo; 
e o lar vazio, 
o gado definhando sem pasto, 
a morte e o frio por todo o lado, 
só a morte, a fome e o frio por todo o lado, António! 
É preciso embarcar! 
Badalão! Badalão! – o sino 
já entoa a despedida. 
Os juros crescem; 
o dinheiro e o rico não têm coração. 
E as décimas, António? 
Ninguém perdoa – que mais para vender? 
Foi-se o cordão, 
foram-se os brincos, 
foi-se tudo! 
A fome espia o teu lar. 
Para quê lutar com a secura da terra, 
com a indiferença do céu, 
com tudo, com a morte, com a fome, coma a terra, 
com tudo! 
Árida, árida a vida! 
António, é preciso partir! 
António partiu. 
E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio. 



Fernando Namora

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